O USO DO AUTOMÓVEL COMO IDEOLOGIA DE DESENVOLVIMENTO E SUAS CONTRADIÇÕES SOBRE A MOBILIDADE URBANA

Flávio Mário Alves Oliveira
Déborah Marques Pereira

A política de investimento adotada pelo Estado brasileiro após a Segunda Guerra Mundial tinha como uma de suas principais frentes de atuação a área de infraestrutura e transporte rodoviário, ancorado em investimentos públicos e das grandes corporações capitalistas internacionais. Esse modelo de crescimento econômico baseado na união público privado atendia ao duplo interesse dos investidores externos e das elites nacionais, seja na forma de remessa de lucros aos países sede, como também proporcionando elevado padrão de consumo e privilégios a segmentos nacionais. O aparato ideológico que se processa a partir da indústria automobilística, enquanto engrenagem estratégica de pujança econômica do país justificava as políticas de produção e a comercialização de automóveis, sendo também determinantes na construção das formas de pensar e agir das pessoas. Este trabalho tem como objetivo discutir como esta ideologia de progresso apregoado a aquisição do automóvel e ao uso do transporte individual, influencia no sentimento de inclusão, de status social, de autorealização e, conseqüentemente, na mobilidade urbana. Esse ideal de crescimento passa a criar paradigmas no ambiente social fortalecendo as imposições capitalistas de necessidades, tornando a opção ou imposição pelo transporte individual uma forma de expressão de poder, de desenvolvimento, de realização e inclusão, alterando as práticas e vivências sociais. Com a urbanização e as melhorias econômicas, aliado a precarização do transporte coletivo, o automóvel se consolida como objeto que simboliza novas dimensões da vida urbana. O veículo, que a princípio teria como função elementar transportar pessoas, passa a se destacar nas relações de amizade, autoconfiança, de respeito, na formação de uma identidade própria e na busca pelo reconhecimento social. A metodologia a ser usada pautar-se-á na revisão de ampla bibliografia recorrendo-se às áreas da geografia urbana, da sociologia, da história, do urbanismo buscando entender o crescimento da cidade em seus aspectos populacional, territorial e os impactos sobre o transporte e a mobilidade. Acredita-se que este trabalho poderá apresentar um novo olhar sobre o trânsito e a mobilidade urbana buscando as bases explicativas para as concepções predominantes que subjugam as demais formas de locomoção - a pé, de bicicleta e o uso do transporte público. O trânsito se apresenta como um cenário de contraste, usado como sinônimo de progresso, crescimento econômico e busca do reconhecimento social a partir do automóvel que se ostenta ao mesmo tempo em que apresenta gestores e usuários das vias públicas incapazes de reconhecer o outro ou de si reconhecerem através do outro.


 

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